Canídeos, restauração e trilhas: o que já encontramos?

Luisa Maria Quezado

Sendo o segundo maior bioma do Brasil, o Cerrado possui uma incrível e única biodiversidade, boa parte que só existe nele. Porém, muitas dessas espécies estão ameaçadas de extinção, inclusive espécies de canídeos, infelizmente. Esses animais formam uma família da ordem dos carnívoros, sendo seres vivos que ocorrem em todos os continentes, menos na Antártida. Dentro deste grupo, estão incluídos lobos, raposas, cachorros, coiotes, entre outros. No Brasil, existem seis espécies de canídeos silvestres. Em relação ao bioma Cerrado existem quatro: Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus); Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous); Raposa-do-campo (Lycalopex vetulus), essa uma espécie endêmica do bioma; e Cachorro-vinagre (Speothos venaticus). Todas elas sofrem com ameaças relacionadas às ações humanas, como atropelamentos, destruição de habitat, caça e até o contato com cães domésticos que circulam em áreas naturais. E mais importante: ainda não existem muitos estudos sobre essas espécies, pelo menos não como que se deveria. Ainda há muitas coisas que não se sabe sobre esses animais, principalmente em um contexto de restauração ecológica, que tanto se tem falado hoje em dia.

As espécies de canídeos do Cerrado: A Raposa-do-campo, B Lobo-guará, C Cachorro-do-mato e D Cachorro-vinagre.

A restauração é um processo no qual um ambiente natural, destruído ou alterado, pretende-se restabelecê-lo para que volte a ser o mais próximo possível do original, algo que exige bastante para resultados mais significativos. Contudo, a maioria das técnicas de restauração focam muito mais em repor a vegetação, sem muita atenção aos animais. Acontece que a fauna, a exemplo dos canídeos, também é muito importante para um processo assim, pois ela pode atuar como predadora e dispersora de sementes, o que pode ajudar a restabelecer interações e proporcionar atividades para um melhor equilíbrio de um ecossistema.

Foi pensando nisso que surgiu a ideia de fazer um projeto sobre a presença e a distribuição de canídeos em uma área em restauração de Cerrado na Floresta Nacional de Brasília, DF. Nessa unidade de conservação há uma presença muito forte de espécies exóticas, principalmente pinheiros e eucaliptos. Por isso, a gestão dessa Unidade de Conservação (UC) iniciou um trabalho de retirada dos eucaliptos em uma das regiões com o intuito de restaurar a vegetação natural, de acordo com as diretrizes do plano de manejo da UC.





Assim, com a realização da primeira etapa, houve a oportunidade de estudar o que acontece com a retirada dos eucaliptos da região em relação aos animais, especialmente canídeos, ou seja, se esses animais permanecem sendo registrados nos espaços e como eles podem se distribuir no meio em comparação à região que ainda não iniciou tal processo. Com esse estudo o objetivo maior é avaliar e quantificar a presença de espécies de canídeos em dois fragmentos da Flona de Brasília, um em processo de restauração, e outro com presença de eucaliptos para comparação. Mais especificamente, o intuito é identificar e quantificar os tipos de dados (vestígios como pegadas e fezes) encontrados nas trilhas ao redor desses fragmentos; quantificar a ocorrência de lobo-guará, raposa-do-campo e cachorro-do-mato no local, uma vez que cachorros-vinagre já não são registrados na região, além de avaliar a distribuição de espécies de canídeos na área de estudo.

"Ainda não existem muitos estudos sobre essas espécies, pelo menos não como que se deveria. Há muitas coisas que não se sabe sobre esses animais, principalmente em um contexto de restauração ecológica, que tanto se tem falado hoje em dia."

Para isso, semanalmente foram percorridos trilhas na área de estudo na UC em busca de informações desses animais por meses. Quando encontrados, os dados foram anotados com informações importantes, bem como o tipo de vestígio que era e a qual espécie pertencia. Depois de serem anotados, os vestígios foram apagados para evitar registrar o mesmo duas vezes. Em seguida, com as informações obtidas em campo, foram feitas análises, dentre elas estatística e descritiva dos dados obtidos. Assim, é possível qualificar os registros encontrados e características observadas. As informações também estão em revisão para envio a publicação em uma revista científica, além da apresentação realizada na 2ª Edição do Congresso Brasileiro de Vida Silvestre. Foi a partir dessa ideia que foi desenvolvido o meu trabalho de conclusão para graduação no curso de Ciências Biológicas. Bacana né? Sempre é possível desenvolver trabalhos científicos interessantes a partir de simples ideias!





Luisa Maria Quezado concluiu a graduação em Ciências Biológicas com trabalho sobre esse tema, quando conseguiu desenvolver atividades em campo, analisar informações, estudar mais a respeito de canídeos e contribuir para mais conhecimento sobre esses animais.

 LEIA MAIS  Se você gostou de saber sobre resultados desse estudo e quer saber mais, acesse o primeiro Doc Natureza do Instituto, que documenta sobre essa Unidade de Conservação, a Floresta Nacional de Brasília.

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