Natu 18


Espécie • Ipê-amarelo (Tabebuia aurea)
O ipê-amarelo, ipê-do-cerrado ou ipê-dourado é uma exuberante árvore da família Bignoniaceae com significativa ocorrência no território brasileiro. Seu nome vem do tupi e significa casca dura. O ipê-amarelo, pode ser encontrado nos biomas da Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal. A espécie é conhecida por gostar de calor e sol pleno. É caducifólia, portanto perdem todas as folhas antes de florescer. Podem chegar a 14 metros de altura e o diâmetro de seu caule até 50 cm. A florada ocorre de julho a setembro e costuma ser maravilhosa. Sua frutificação acontece de setembro a outubro. Pense num local verde ou branco com tons de amarelo ouro, lindo né? Essa planta é bastante utilizada para fins ornamentais e possui grande influência sobre espécies melíferas, como as abelhas. Possui madeira dura, densa e forte, considerada nobre. As raízes também possuem efeito medicinal. 


  



Na trilha • Trilhar é aprender a valorizar o caminho 
Quantas vezes na vida - numa viagem, num encontro, num dia cheio no trabalho e a vontade de voltar logo para casa e até mesmo nos dias de aguardo de uma data tão esperada - não conseguimos enxergar a beleza que há no contemplar o caminho. Segundo o dicionário Michaelis, o caminho significa: “distância ou espaço que se percorre para chegar a determinado lugar; itinerário, percurso, rota, trajeto”. Trilhar é justamente aprender a valorizar esse caminho que será percorrido. Independente da dificuldade e/ou tempo da trilha, ela irá te proporcionar superação dos obstáculos e de suas capacidades, concentração física e mental, aprendizado e autoconhecimento, além de uma série de boas sensações, como sentir o cheiro dos óleos essenciais liberados pelas plantas, o cheiro da terra molhada na estação chuvosa, ao ver o mudar da luz no passar das horas, ao contemplar o som dos animais e das árvores balançando com a brisa… sem contar do silêncio que também vale muito. Trilhar te permite se reencontrar consigo, se conectar com a natureza, conhecer locais e pessoas incríveis, além de conhecer para conservar nossa natureza. Com esse exercício, seremos capazes de valorizar a rota necessária a percorrer, lembrando que o mais importante não é a partida ou a chegada, e sim o caminho. 


Entrevista • Eduardo Guimarães
Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Brasília e Mestre em Ecologia pela Universidade de Brasília. Foi assistente de plantel da diretoria de mamíferos da Fundação Jardim Zoológico de Brasília, onde assessorou sobre o manejo e conservação de mamíferos sob cuidados humanos. Durante mais de cinco anos foi Responsável Técnico no Plano de Manejo do Risco da Fauna e no Plano de Gerenciamento do Risco da Fauna do Aeroporto Internacional de Brasília. Atuou também com consultorias ambientais realizando diagnóstico, levantamento e monitoramento faunístico com enfoque em avifauna. Atualmente é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade de Brasília. 
 



Quando e por qual motivo escolheu cursar Ciências Biológicas?
Escolhi cursar Biologia quando estava terminando o ensino médio. Devo agradecer a uma aluna da Universidade Católica de Brasília (infelizmente não sei o nome) que foi na minha escola em Taguatinga (CED 07) e papeou com os alunos. Ela me perguntou que curso eu estava pensando e eu falei: “não sei, só sei que gosto de bicho, tem algo assim?” e dei risada. Eu não tinha a menor ideia de que era possível trabalhar com os animais. Ela falou: "então você tem que fazer Ciência Biológicas”. Entrei sem nem saber do que se tratava, essa é a verdade. Claro que assim que entrei e conheci me encantei e me dediquei bastante. Sou muito grato a essa pessoa anônima.

O que te incentivou a fazer Mestrado e Doutorado em Ecologia?
Quando comecei a ler sobre ciência e a importância histórica do desenvolvimento científico na vida dos humanos eu decidi que eu queria produzir ciência, apesar de não saber nada sobre como isso funcionava. Posso parecer meio bobo falando isso, mas a ciência é muito mágica. Muitos autores como Richard Dawkins, Carl Sagan e Marcelo Gleiser ressaltaram o poder transformador da ciência em seus livros. Pensando agora em retrospectiva sou muito grato aos autores desses livros que me mostraram como a ciência é mágica e libertadora e como, após o desenvolvimento e aperfeiçoamento do método científico, nossa sociedade melhorou (estou falando em todos os aspectos possíveis). Quando me formei eu já estava trabalhando e tentando entender como fazer ciência, ou seja, como testar hipóteses e gerar conhecimento, mas ainda me faltava a bagagem de estudo (inclusive bagagem para entender o que era uma hipótese e o que era conhecimento). Assim, com intermédio de um amigo que fazia estágio na UnB, fui ajudar em coletas de dados aqui em Brasília para o Laboratório de Ecologia de Vertebrados (Ecovert), do professor Emerson Monteiro Vieira, na UnB. Na convivência do laboratório eu aprendi quais os passos necessários para conseguir trabalhar como cientista e entendi que era preciso fazer um Mestrado. Sou muito grato ao professor pela oportunidade e a todos alunos que muito me ensinaram durante os trabalhos no laboratório. Fiz a prova, passei e fiz meu Mestrado. O Doutorado foi o passo lógico seguinte, pois gostei bastante do Mestrado.

Qual foi o ponto crucial que te fez escolher trabalhar com as Aves?
Eu sempre gostei de passarinho. Quando eu era mais novo eu conheci muitas pessoas que criavam passarinhos e eu adorava aprender sobre os bichos. O que comem? por que canta? Como reproduzir? Como fazer o macho cantar mais? Quais aves eu ainda não vi? Virei um criador de passarinho rapidamente. Adorava acordar cedo para colocar os animais no sol. Lembro de ficar animado com o crescimento do capim por causa das chuvas, que normalmente fazia algumas espécies diferentes aparecerem próximo da minha casa (sempre ficava encantado com a patativa, por exemplo, apesar de minhas tentativas de criá-las terem fracassado). Na época não tinha noção de quão diverso é esse grupo ao redor do mundo e, principalmente, aqui no Brasil... Enfim, eu posso dizer que minha convivência com os animais, mesmo que em cativeiro, me fez gostar bastante do grupo. Escrevi um texto recente para o Jurumi pontuando como nossa espécie está intimamente ligada aos outros animais através das domesticações. Hoje entendo mais o motivo de me fascinar. Quando tive que refletir sobre qual área dentro da biologia eu queria seguir, já sabia que queria mexer com as aves. Hoje não tenho essa restrição. Como ecólogo entendi que todos os grupos são interessantes e não me restrinjo às aves.

Como surgiu e qual é o objetivo do Projeto Aves da Janela?

O projeto surgiu como um suspiro para a pandemia que estamos passando. No início da pandemia eu tinha acabado de saber que tinha passado na prova do Doutorado. Apesar de meu projeto do Doutorado ser voltado a trabalhar com os animais em ambientes urbanos, não tinha envolvimento da população na coleta de dados (os cientistas ciência cidadãos). Nós queríamos ir às escolas ensinar, coletar dados e divulgar conhecimento. Queríamos mapear as espécies nos ambientes urbanos, de diversos grupos. Era uma grande parceria minha com os professores da biologia da Universidade Católica de Brasília. Quando a pandemia chegou tivemos que pensar formas de coletar dados, até para não enlouquecer devido ao isolamento social necessário. Após muitas discussões e bate papo eu e a professora Helga C. Wiederhecker tivemos a ideia do projeto aves da janela. O objetivo foi envolver as pessoas que estão tendo que ficar em casa na coleta de dados sobre a biodiversidade e, dessa forma, demonstrar como os animais estão presentes nas cidades.
Posso dizer que o objetivo do projeto foi se adequando ao longo do tempo. No início queríamos entender como esses animais estão lidando com as alterações dos ambientes urbanos (poucas árvores, aumento do calor, aumento de predadores como os gatos-domésticos, etc.). Também estávamos interessados nos efeitos que a pandemia ia ter sobre esses animais: será que vai aumentar o número de animais? Será que vai diminuir? Será que novas espécies irão aparecer em locais antes nunca visto? Nós tínhamos muitas dúvidas. Após iniciarmos o projeto e começar a receber o retorno das pessoas que estavam coletando os dados como voluntários, notamos a complexidade do projeto. As pessoas estavam relatando um aumento de bem-estar. Estavam relatando a paz que estavam sentindo ao observar os animais. Muitos relatavam que não imaginavam que estavam cercados por tantos animais bonitos e agradeciam a gente. Isso foi muito comovente e fez com que o projeto se adequasse focando em divulgações e em estreitar relações com essas pessoas. Procuramos sempre responder as dúvidas, identificar fotos dos animais e divulgar conhecimento para essas pessoas. Claro que estamos trabalhando na organização de todos os áudios que recebemos e temos por objetivo produzir conhecimento (artigos científicos, para ser mais claro), mas hoje posso dizer que o projeto é maior do que quando surgiu. hoje estamos interessados também no seu impacto nas pessoas que nos ajudam. Nossos cientistas voluntários. 

Como é conscientizar as pessoas para as ações de conservação através das fotos tiradas no Projeto?
É muito difícil. Eu posso dizer que nós tentamos sensibilizar as pessoas. Entretanto, é sempre muito difícil avaliar o tamanho da nossa influência. O nosso retorno é através de comentários e relatos. Até o momento, todos esses relatos foram positivos e, cada um faz a equipe ficar mais animada e dedicada. Hoje temos nove pessoas trabalhando de forma direta no projeto (organizando e escutando áudios, identificando as espécies, produzindo material de divulgação no Instagram, discutindo tópicos do projeto etc.), todos de forma voluntária. Além disso, temos os voluntários em casa gravando os áudios. Recebemos mais de 1000 áudios até o momento, distribuído em 90 pontos de Brasília. São pessoas incríveis que acreditam na proposta. É muito gratificante. Eu quero encontrar todo mundo em um grande encontro do projeto um dia (quando a pandemia acabar, claro). Vai ser incrível conversar, mostrar o que aprendemos sobre os animais e entender melhor como o projeto ajudou cada um.

Conte-nos sobre os desafios que enfrentou como Responsável Técnico no Plano de Manejo do Risco da Fauna e no Plano de Gerenciamento do Risco da Fauna do Aeroporto Internacional de Brasília.
Eu fiquei mais de cinco anos trabalhando no Aeroporto de Brasília. Para mim foi uma experiência incrível, de muito aprendizado. Foi o meu primeiro emprego formal. A responsabilidade dentro do aeroporto era muito grande. Logo no início tive que entender o funcionamento do sistema e aprender a fazer muitos relatórios para me resguardar. Cada minuto no aeroporto era cercado de interesses e conflitos. Se um animal bate em uma aeronave, por exemplo, quem paga os danos na aeronave? O gestor do aeroporto? A empresa aérea? O biólogo que está gerenciando o risco? Aprendi que o biólogo tem que se colocar como um profissional sério e que tem que ter poder de voz, pois nós entendemos mais a fundo os animais e o meio ambiente. No aeroporto aprendi que muitas vezes isso não importa, caso você não saiba se colocar. Meu projeto de Mestrado foi feito com uma espécie (a famosa coruja-buraqueira) que comumente colidia com aeronaves. Até hoje é um tópico que eu tenho interesse, pois o retorno a população é a curto prazo. Os artigos gerados com esse projeto, ou seja, os aprendizados e descobertas que fiz, estão sendo revisados pelas revistas científicas e espero ainda esse ano ter publicado. Como eu disse, foi muito aprendizado e mudei bastante ao longo de todo o tempo que trabalhei no aeroporto.

O que um biólogo precisa para ingressar no mundo das consultorias ambientais? Como isso ocorreu com você?
Sinceramente não sei direcionar os futuros biólogos para essa área. Posso contar como ocorreu comigo e talvez esse relato possa ajudar. Eu estava no quarto semestre do curso de graduação na Universidade Católica de Brasília, quando fui ao Zoológico de Brasília pedir para ser voluntário. Entrei e fiquei lá por dois anos e meio. No Zoológico eu pude conhecer profissionais que estavam trabalhando na área dentro do zoológico e que eram procurados para diversos trabalhos, inclusive consultorias. eu tentava sempre fazer o melhor no zoológico, aprendendo como o trabalho funcionava e como eu poderia ajudar os biólogos e veterinários. Assim, um amigo dentro do Zoológico me indicou para um trabalho com mamíferos e fui para Minas Gerais ajudar em um campo. Após esse primeiro contato fui sendo indicado e rapidamente saí do zoológico para trabalhar com consultoria. Acredito que uma lição que tiro dessa minha pequena história é que todos dependemos de outras pessoas: a pessoa que me indicou para uma consultoria, a pessoa que me aconselhou no início do emprego, pessoas que convivi e muito aprendi...Claro que eu acredito que também tenho méritos, pois tentava sempre fazer um bom trabalho. Mesmo assim sempre penso em quem me indicou. Sou muito grato. Então, seja um bom profissional e esteja envolvido em projetos (mesmo que de forma voluntária, como foi meu período no zoológico). Seja visto e lembrado que a oportunidade irá, muito provavelmente, aparecer.

Conte-nos sobre sua experiência no Jardim Zoológico de Brasília e dos momentos marcantes.
Trabalhar no Zoológico de Brasília mudou minha vida de muitas formas. Como relatei na outra pergunta, sem ter entrado no zoológico acredito que não teria feito os contatos profissionais que me encaminharam as consultorias ambientes e que, posteriormente, me levaram a trabalhar no aeroporto. além disso, no Zoológico você tem um contato muito próximo com os animais. Lembro a primeira vez que desci nos fossos, onde ficam os grandes felinos (leão, tigres, onças etc.), e senti um arrepio na espinha com o esturro (vocalização) do animal. Era incrível como, mesmo sabendo que não havia nenhum risco pois tinha uma grade entre nós, o arrepio vinha sempre que o animal esturrava. Lembro uma vez que me voluntariei a ficar de noite para capturar um jacaré que estava solto no parque. Quando penso no zoológico sempre me vem na memória a primeira vez que fui capturar uma capivara e o animal era tão forte que me arrastou (os amigos ainda dão risada desse acontecimento sempre que me encontram, pois era apenas um filhotinho). Eu poderia passar horas contando histórias (muitas delas lembradas sempre que possível, pois passei muitas situações engraçadas no zoológico). Acho que o importante foi o tanto que eu aprendi sobre biologia no zoológico, em um tempo bem curto. Aprendi a capturar e manejar de forma segura todos os grupos. Aprendi sobre bem-estar animal. Aprendi sobre a importância de conservar nossa biodiversidade e como os zoológicos são aliados dos planos de conservação. Aprendi sobre coleções científicas e sua importância. Ao mesmo tempo aprendi que existem profissionais que trabalham na área e que pouco se importam com o conhecimento científico ou com os animais, só querem ganhar dinheiro sem esforço e pronto (pois é, o mundo é diverso). Coloquei o contraponto só para mostrar que nós temos que aprender a lidar com isso também, apesar de que em uma área específica como o zoológico eu ter visto isso de forma menos frequente. Enfim, foram dois anos e meio de um aprendizado intenso tanto sobre biologia como sobre aspectos sociais de convívio. Hoje eu volto sempre que possível no Zoológico para rever os muitos amigos que ainda trabalham lá. É um lugar incrível!

Lab • Extração de Óleos Essenciais (OE) 
Óleos essenciais são componentes odoríferos e voláteis que podem ser extraídos de plantas aromáticas que evaporam naturalmente à temperatura ambiente. Podem ser encontrados nas folhas, cascas, troncos, raízes, flores, frutos e sementes. Atualmente, são conhecidos cerca de 3 mil óleos essenciais encontrados na natureza e são amplamente utilizados na alimentação, estética, cuidados com a saúde e bem-estar. Para a planta, além de proteção, eles têm papel importante na polinização. Para a extração de óleos essenciais são utilizados métodos como: destilação por arraste de vapor, extração por solvente, enfloração ou enfleurage, prensagem a frio, extração por fluido supercrítico. Um dos principais e mais antigos métodos, além de baixo custo para extrair óleos essenciais, é a destilação por arraste de vapor. Os componentes que serão utilizados para extração são colocados no balão de fundo redondo com água destilada até atingir o ponto de ebulição. O vapor da água se encarregará de arrastar as substâncias voláteis para o condensador, que após um resfriamento a mistura voltará ao estado líquido. Como sabemos, água e óleo não se misturam e ao fim desse processo, é possível a separação do óleo para tratamento, embalagem e distribuição.
 

Nossos resíduos • Esgoto nos rios: do meio ambiente à saúde pública 
O despejo de esgoto nos rios é um problema que afeta a saúde pública e a natureza, além disso provoca efeito negativo na economia do país. Como sabemos, proteger os mananciais é algo de extrema importância, pois a água é primordial à vida, a manutenção e equilíbrio dos ecossistemas. No entanto, a situação é delicada e isso vai desde o saneamento até a distribuição e consumo de água. Embora o saneamento básico seja um direito assegurado pela CF/88, sua falta, ainda é um problema real que atinge cerca de 17% da população do Brasil. O reflexo dessa situação é o despejo de esgoto nos rios e a poluição dos cursos d'água. Esse impacto ambiental negativo leva a morte de animais e a proliferação de microorganismos e algas nocivas à saúde. Também é responsável pelo acometimento de doenças na população, principalmente em idosos e crianças, além das pessoas imunossuprimidas. Segundo a Organização das Nações Unidas - OMS, mais de 1 milhão de crianças morrem por ano em decorrência de diarreia em todo mundo e mais de 80% dessas mortes poderiam ser evitadas com o tratamento correto e eficaz do esgoto e da água, ou seja, com um sistema de saneamento básico funcional, a saúde humana, animal e ecossistêmica só tende a agradecer.
 
Natu 18 • 27/09/2021 • Ipê-amarelo (Tabebuia aurea) • Redação • Direção: Nathália Araújo; Conteúdo: Amanda Costa; Rodrigo Jose; Fotografias: Eduardo Guimarães.

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