Natu 14





Espécie • Canela-de-ema (Vellozia squamata)
A canela-de-ema é uma planta pertencente à família botânica Velloziaceae. Essa família possui cerca de 70% das espécies endêmicas no Cerrado. A canela-de-ema é um exemplo disso, ou seja, é um arbusto típico do Cerrado que leva esse nome pois o caule assemelha-se às canelas das emas. Ocorre especialmente na Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais e Mato Grosso, nas fitofisionomias de campo rupestre e cerrado lato sensu. Adaptada a solos ‘pobres em nutrientes’, rochosos e, em geral, sob alta incidência solar. Possui características fitoquímicas que lhe confere resistência à queimadas. Suas flores de cor lilás (com variações de claro a mais escuro), embelezam as paisagens do Cerrado entre abril e junho, e são polinizadas por abelhas. A planta dispõe de grande potencial ornamental, mas também é utilizada na medicina e estética. Seu cultivo, assim como outras espécies do Cerrado, não é fácil. A técnica de micropropagação in vitro é bastante utilizada para criação de novas mudas. Essa técnica também é amplamente utilizada na produção de orquídeas e bromélias. 







Na trilha • Plantas que cuidam de você
A prática do uso de medicamentos à base de plantas é bastante antiga, mas de modo geral, não é tão comum olhar para as plantas do Campo e pensar sobre o seu potencial medicinal. Muitas vezes, temos esse olhar cuidadoso para as ervas do nosso quintal ou para as que a nossa avó preparava quando estávamos com algum sintoma adverso. No entanto, além da beleza de suas árvores tortuosas, o Cerrado em especial, possui espécies botânicas de elevado potencial medicinal e isso torna sua conservação ainda mais importante e imediata.

Das ervas às árvores, dos rizomas até as sementes, incluindo suas substâncias liberadas no orvalho da manhã, várias são as partes constituintes das plantas que podem ser utilizadas na manutenção e equilíbrio da saúde, mas que sofrem com a diminuição de espaço devido ao desmatamento, queimadas, introdução de espécies invasoras como os capins de origem africana: capim-gordura (Melinis minutiflora), capim-marandu (Urochloa brizantha) - mais conhecido como brachiaria, capim-jaraguá (Hyparrhenia rufa) entre outros, a fim de, conversão da área em pastos, engorda de animais, etc.

Atualmente, cerca de ⅓ da população mundial faz uso de plantas medicinais para curar alguma doença ou por alguma propriedade mais específica. Algumas espécies mais conhecidas e outras pouco conhecidas que podem ser citadas para esse bioma: chapéu-de-couro (Echinodorus grandiflorus), bate-caixa (Palicourea rigida), pequi (Caryocar brasiliense), buriti (Mauritia flexuosa), perpétua (Gomphrena macrocephala), cajuzinho-do-cerrado (Anacardium humile), araticum-do-campo (Annona coriacea), papo-de-peru-do-cerrado (Aristolochia esperanzae), mangaba (Hancornia speciosa), pimenta-de-macaco (Xylopia aromatica), barbatimão (Stryphnodendron adstringens), pau-santo (Kielmeyera coriacea). Entre tantas outras que carecem de estudo.

Não só a conservação do Cerrado, da mesma forma com os outros biomas, também é uma tarefa nossa. Cabe ao morador ou visitante a busca em fazer, através de atitudes, melhores ações pelo Planeta, pois os recursos que ele nos dá, são gratuitamente abundantes, desde que utilizados com sabedoria e responsabilidade.

Nota: Nomes científicos são usados para certificação de espécies, eles são aceitos em todas as línguas, no qual, cada nome dá-se apenas a uma espécie. Portanto, o emprego dos nomes científicos das espécies botânicas apresentadas nesta coluna, servem para evitar o desencontro de nomes populares que podem mudar de região para região.








Entrevista • A docência e suas experiências inesquecíveis por Morgana Bruno
Graduada em Biologia pela Universidade Federal do Ceará, Mestrado e Doutorado em Ecologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é Docente da Universidade Católica de Brasília com atuação nas grandes áreas de Meio Ambiente e Educação. Como pesquisadora, desenvolve projetos e orienta trabalhos relacionados ao Meio Ambiente, Sustentabilidade e Educação, além da produção de materiais didáticos e de Divulgação Científica. É integrante do grupo de pesquisa Biodiversidade e Conservação da Universidade Católica de Brasília onde coordena o Projeto Museu Itinerante de História Natural - Museu IHN.
 





Dentre as diversas áreas que a biologia contempla, por que escolheu trabalhar com ecologia?
A princípio, creio que como muitos, o que me atraiu na Biologia foi a Zoologia. Venho de uma cidade costeira e, assim como o mar, os animais marinhos me encantavam. Entretanto, os grupos de pesquisa da universidade onde fiz minha graduação eram fortes no estudo de invertebrados, o que não me atraía. Então me aproximei da Botânica. Porém, ao longo da graduação, durante as pesquisas, sentia dificuldade em restringir meu objeto de estudo. Minha tendência era sempre considerar a importância das variáveis e querer estudá-las. Tinha uma propensão natural para encarar meu objeto de estudo considerando sua integralidade, conhecer o funcionamento do sistema e a interferências das variáveis que o compõem. Até hoje não me satisfaço em conhecer a biologia de um organismo sem compreender os processos e fatores que interferem na sua ecologia. Aplico os conceitos da Ecologia em todos os âmbitos da minha vida, só vejo a vida dessa forma integrada e dependente, com as vantagens e desvantagens disso.

Você atua nas grandes áreas de Meio Ambiente e Educação, duas áreas super importantes, mas que no nosso país não são tão valorizadas. Como você lida com isso e qual mensagem você pode deixar a respeito?
Uma das maiores desvantagens de atuar nessas áreas é lidar com a “romantização” desses temas. Isso permite que sejam abordados sem cientificidade e a seriedade necessária. É comum vê-los serem encaixados em todos os lugares, não que não mereçam, mas apenas para preencher um espaço, muitas vezes não previsto, com a função de atrair a simpatia da sociedade. Outra dificuldade é destruir essa barreira que impede as pessoas de relacionarem as questões ambientais à saúde, à economia, ao preconceito, à misoginia, à fome, à depressão etc. A Educação Ambiental há muito tempo tem entre suas vertentes abordagens que vão além da visão naturalista e conservacionista do meio, mas quantas escolas abordam as questões ambientais apresentando exatamente os causadores de problemas que estão muito mais próximos de nós que as queimadas ou perda da diversidade biológica? Quem você conhece que relaciona doenças como a obesidade à falta de laser, de áreas verdes, de ar puro, dinheiro, ou com a exploração do ambiente e ao acúmulo de capital por poucos, enquanto os prejuízos são divididos entre a maioria? Creio que de uns três anos para cá tem ocorrido uma mudança na abordagem desses temas, mas como vivo predominantemente no meio educacional, não tenho certeza da real dimensão desse crescimento na sociedade.

Estamos tratando de áreas fundamentais na compilação e veiculação das informações sobre o que nos afeta diretamente e envolve mudanças na percepção dos indivíduos. É necessário que o cidadão tenha mais acesso ao conhecimento e seja menos inocente, o que não interessa aos que se beneficiam da exploração dos recursos ambientais e humanos. Pelo contrário, vai de encontro aos interesses desses grupos. Assim, nos cabe atuar nas entrelinhas, direcionar o conhecimento para as demandas urgentes e relacionadas à preservação da qualidade de vida da sociedade, mas para isso é fundamental que os educadores estejam dispostos a adquirir conhecimento sobre diferentes áreas e propor mudanças na formação dos futuros profissionais da educação.

Conte-nos sobre como é coordenar o Projeto Museu Itinerante de História Natural.
O Museu IHN foi um presente na minha vida. É um espaço onde podemos realizar esse trabalho de comunicar os feitos da ciência e desmistificar esse ambiente acadêmico, promovendo a presença da comunidade na universidade. Os estudantes da graduação e das escolas passam a se conhecer. Os professores trocam experiências, saberes e necessidades. Nós finalmente podemos nos aproximar daqueles que são o real motivo e inspiração para o nosso trabalho e estudos. Além dessa questão das relações humanas, muitas competências são desenvolvidas quando realizamos palestras, exposições, oficinas etc. Imagine todo o estudo necessário para a construção de uma exposição que envolve a escolha do tema, a produção das peças, as pesquisas acerca da biologia e ecologia dos organismos, a criação dos cenários, a adaptação da linguagem etc. Você mobiliza e propicia a manifestação de habilidades que nem sabemos que temos. O Museu IHN se mantém em constante progresso, cumprindo um papel incalculável e ainda não totalmente explorado para a universidade e a sociedade.

Qual a contribuição do Projeto Museu para a ciência no nosso país? Como ele funciona?
O Museu IHN funciona tanto como um local de produção de conhecimento, através do desenvolvimentos de pesquisas nas áreas de Educação, Ecologia, Genética, Zoologia etc., como de divulgação do conhecimento que a ciência produz. Costumamos atuar de forma integrada com pesquisadores de diferentes áreas que colaboram orientando alunos em projetos de iniciação científica da graduação. Os alunos também participam das atividades extensionistas e de divulgação da ciência junto à comunidade acadêmica e não acadêmica. Essa divulgação se dá através das exposições, palestras, “aulões”, oficinas etc. Momentos em que experienciamos uma permuta de perguntas e respostas entre todos que participam.

Além do Museu IHN, quais outros dos projetos que você executa ou já executou que você gostou mais? Por quê?
Participo de projetos voltados para a conservação ambiental, principalmente no estudo do efeito do ser humano sobre os ambientes e destes sobre o ser humano, e das estratégias para promoção de uma educação que propicie conhecimento e ação para conservação do meio ambiente.

Entre os anos de 2017 e 2018 desenvolvemos um projeto com foco na produção de materiais didáticos e divulgação da ciência, especialmente sobre o Cerrado. Como resultados foram produzidos livros, jogos e materiais de divulgação científica, além de realizadas exposições, oficinas e palestras para mais de 16.000 participantes. Academicamente, ainda foram elaborados sete trabalhos de conclusão do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas. Algo realmente muito gratificante para todos que participaram, por possibilitar experiências em áreas pouco exploradas de atuação do biólogo.

Quais os desafios e superações que você teve ao longo da sua trajetória?
Muitos foram os desafios, mas foi exatamente o que deixou essa caminhada muito mais prazerosa. Gosto de mudanças, novas experiências, e por isso encaro os desafios como os melhores momentos. Os maiores sempre estiveram relacionados a superação das minhas crenças sobre mim e sobre a equipe com quem trabalho. Tenho satisfação em descobrir que consegui fazer algo e vejo essa mesma satisfação nas pessoas com quem trabalho, quando percebo que eles embarcam na minha ideia sem muita confiança se são capazes, e no final se surpreendem. Todos unem forças e dão o seu melhor e o resultado não tem como não ser bom. Tenho uma satisfação imensa em ver o trabalho em equipe, em ver a superação em conjunto, afinal o que nós sabemos sobre nós é a partir de como o outro nos ver. Trabalhamos para gerar o interesse dos outros naquilo que defendemos, fazer com que o outro conheça e entenda sobre o que falamos, que seja incluído e que nos inclua no seu mundo.

Como é trabalhar com divulgação científica no Brasil?
Se partirmos do fato de que tudo que aprendemos tem a ver com o conhecimento científico, vejo como o maior problema a eliminação daquilo que não é científico. Ou seja, vivemos um momento no qual a ciência e a comunicação foram favorecidas pelas tecnologias digitais, ao mesmo tempo que esses meios também fomentaram, a uma velocidade e extensão incríveis, inverdades, irrealidades e pautas que servem ao interesse de grupos específicos. Dessa forma, trabalhar com divulgação científica hoje é um ato político e como tal, vai ser alvo de disputas e poderá ter sua narrativa questionada. Para que seja bem sucedida, a divulgação de um conteúdo deve encontrar terreno fértil (local) e estação favorável (tempo). Quando um determinado tema se encaixa nas demandas da sociedade é que conseguimos a real chance de gerar o ativismo e colher seus frutos.

Como ser um bom biólogo? Mestrado e Doutorado são primordiais?
Creio que o bom biólogo deve ter um apreço enorme pelo conhecimento, ser um curioso, mas que também um grande contador de histórias e assim, ser capaz de ser notado pela sociedade. Aquele que consegue ser escutado, compreendido e, por isso, admirado. Afinal, não são todas as profissões que concentram sua conduta em ações tão benéficas para o mundo. Atuamos desde a pesquisa de base relacionada à saúde humana, conservação ambiental, até a formação de educadores. Ou seja, estamos presentes nos mais diferentes níveis e processos mantenedores da vida. Então, que a nossa participação na sociedade seja mais proeminente, que nossa voz seja ouvida e que ouçamos também.

Não creio que mestrado e doutorado sejam obrigatórios, mas por estarmos numa área com muitas subáreas e uma vastidão de informações, se torna aconselhável que restrinjam o campo de estudo para que tenhamos um conhecimento mais profundo. Claramente, sem nos alienar ou perder a noção de integridade e interrelação dos sistemas. Além disso, quanto mais experiências e aprendizagem melhor. Serão elas que nos forjaram não só como profissionais, mas como cidadãos.

Qual experiência você teve como bióloga que marcou a sua vida?
O fato de ser professora me faz ter uma lista infinita de experiências inesquecíveis. Todas as semanas me surpreendo com a aprendizagem de alguém e sou surpreendida com o prazer e a minha capacidade de aprender. Isso é algo fantástico, apesar de nos fragilizar na relação com o nosso empregador, que muitas vezes se aproveita dessa imensurável satisfação de estar numa sala de aula, para desvalorizar o nosso trabalho, tempo, conhecimento e educação.

Você se sente realizada como bióloga?
Sim. Mas creio que ainda tenho umas fichas para gastar com lugares e animais maravilhosos, para aprender em palestras e aulas de alguns cientistas formidáveis, nas formaturas dos meus meninos, para ver a carinha de surpresa das visitantes do Museu IHN, para rir com os alunos durante as aulas, para as confraternizações de final de ano... e ainda tenho muitas perguntas para fazer e responder sobre esses maravilhosos seres do nosso planeta.

Lab • Eletroforese em gel
A eletroforese em gel é uma técnica usada para separar fragmentos de DNA de acordo com seu tamanho e carga. Realizada pela primeira vez em 1937, por Arne Tiselius, um bioquímico sueco. As amostras de DNA são carregadas nos poços (cavidades) localizados numa das extremidades de um gel, e uma corrente elétrica é aplicada para fazê-las avançar pelo gel. Em função de seu tamanho e carga, as moléculas vão se mover através do gel em diferentes direções ou em diferentes velocidades, o que permite que sejam separadas umas das outras. Os fragmentos DNA estão carregados negativamente, então movem-se na direção do eletrodo positivo. Já que todos os fragmentos de DNA têm a mesma quantidade de carga por massa, os fragmentos menores atravessam o gel mais rapidamente do que os maiores. Quando um gel é pigmentado com um corante que se liga ao DNA, os fragmentos de DNA podem ser vistos como bandas, cada uma representando um grupo de fragmentos de DNA de mesmo tamanho. Através do uso da eletroforese, podemos ver quantos diferentes fragmentos de DNA estão presentes em uma amostra, e o quão grandes eles são em relação aos outros. Podemos também determinar o tamanho absoluto de um pedaço de DNA examinando-o ao lado de um DNA "padrão", composto de fragmentos de DNA de tamanhos conhecidos. Essa técnica é amplamente utilizada na bioquímica, microbiologia, genética e ciência forense.


Nossos resíduos • O que significa a política dos 5 R’s?
Os 5 R’s representam cinco ações para a redução da geração de resíduos sólidos: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar. Essas atitudes estão diretamente relacionadas à ordem de prioridade na gestão de resíduos definida na Política Nacional de Resíduos Sólidos, que é a: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos. Aplicar a política dos 5 R’s significa uma mudança de postura de empresas e da população diante do consumo e dos impactos que nossas escolhas e os resíduos gerados por nossas atividades podem causar no meio ambiente. A ação de Repensar nos faz refletir sobre “tudo que eu consumo é realmente necessário?” ou “de quem eu compro meus produtos, qual a origem dos materiais”? O ato de Recusar é quando entendemos que nossos hábitos de consumo podem representar significativos impactos ao meio ambiente, e isso incentiva os produtores a adotarem melhores práticas em seus projetos. A partir da reflexão, chegamos na ação de Reduzir, na qual consequentemente será diminuída a geração de resíduos, assim como o Reutilizar, em que os resíduos são aproveitados, sem que haja transformação. O último procedimento é o Reciclar, no qual, após as medidas para minimização da geração, o que virou resíduo pode ser transformado em insumos ou novos produtos, reduzindo o consumo de matérias-primas além de gerar renda e inclusão social. A política dos 5 R’s então é uma mudança de hábitos, valores e de práticas!

Natu 14 • 12/05/2021 • Canela-de-ema (Vellozia squamata) • Redação • Direção: Nathália Araújo; Conteúdo: Amanda Costa; Angélica Fujishima; Brenda Menezes; Rodrigo Viana; Fotografias: Morgana Bruno.

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