Natu 30

Espécie • Quaresmeira (Trembleya parviflora
Melastomataceae é uma família botânica que abrange mais de 5.500 espécies, dentre elas, a quaresmeira. Essa espécie é nativa do Brasil, lenhosa, encontrada como arbustiva ou arbórea em substrato terrícola, pode chegar até 5 metros de altura. Ela pode ser vista nas fitofisionomias de Campos Sujo, Limpo, Rupestre e de Altitude; Vereda e bordas de Matas Ciliares e de Galeria nos Estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e no Distrito Federal. Sua floração é de abril a maio. Tem a frutificação entre junho e outubro. Seus frutos são do tipo cápsula, se abrem quando estão maduros. Sua polinização é feita por abelhas e as sementes dispersadas pelo vento, chamada de anemocoria ou anemocórica.

Na trilha • Cerrado é o destino 
Entre chapadas, florestas, parques e vales está o Cerrado, ocupando mais de 22% do território brasileiro, um berço de águas. Um bioma biodiverso, marcante e resiliente diante das ameaças antrópicas (vindas do homem). Troncos tortuosos, pôr-do-sol encantadores e moradores animais, por sua vez, peculiares. O turismo no Cerrado, tem se tornado cada vez mais comum, o que é uma excelente alternativa para promover o conhecimento e a conservação desse domínio fitogeográfico. Depois da Amazônia, é o segundo maior ecossistema brasileiro, dotado de raras e ameaçadas belezas. 

Sua fauna engloba mais de 200 mamíferos, 850 aves, 150 de anfíbios, 180 répteis e dezenas de milhares de invertebrados. Ambos os grupos com consideráveis taxa de endemismo. Sua flora é de cerca de 12 mil espécies, sendo aproximadamente 4 mil endêmicas e mais de 230 medicinais e alimentícias. Essas taxas de endemismo o caracteriza como um hotspot (região com alto índice de biodiversidade e endemismo). O Cerrado, localiza-se basicamente no Centro do Brasil, o que facilita no deslocamento dos turistas vindos de diferentes regiões do país. Seus importantes pontos turísticos são Chapada dos Veadeiros, Jalapão, Bonito e Caldas Novas. 

Arrume sua mochila, separe sua câmera, prepare para belos momentos e boas-vindas ao Cerrado!  

Entrevista • Desafios e experiências por Kleber Del-Claro  
Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp; 1987), Mestrado (1991) e Doutorado (1995) em Ecologia pela Unicamp (1995). Professor Titular da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 1992. Pesquisador CNPq 1A e PPM/FAPEMIG. Diretor de Pesquisas da UFU (2017-2021). Coordenador da PG Ecologia/UFU e do Fórum dos Coordenadores de PG/Ecologia do Brasil (2003/2007). Presidiu a comissão "Tropical Biology and Natural Resources"- UNESCO/EOLSS - United Nation Educational, Scientific and Cultural (2007-2011). Presidente da Sociedade Brasileira de Etologia (SBEt 1998/2000 e 2006/2008). Diretor do Instituto de Biologia da UFU (2013-2017). Membro do Comitê de Ecologia e Limnologia do CNPq, 2015/17. Membro do Conselho Científico do Whitney Harris World Ecology Center, USA. Editor Associado da Sociobiology; Acta Ethologica, Plos ONe. Autor de mais de 200 publicações em revistas indexadas, 8 livros e uma enciclopédia (UNESCO). Com mais de 180 orientações a estudantes e profissionais, conseguiu prêmios, com destaque em Pesquisa Warwick E. Kerr (2013/UFU); Melhor Orientação de IC/CNPq/UFU (2013); Melhor trabalho 2011 - IUSSI - International Union for the Study of Social Insects. Dedica-se ao estudo da Ecologia Comportamental e de Interações, estuda como interações multitróficas interferem sobre a diversidade e conservação de ecossistemas naturais. Apaixonado pela História Natural, Comportamento Animal e Divulgação Científica (inaugurou a página de livros eletrônicos do CNPq). Está na lista dos Cientistas com as carreiras mais influentes no mundo - PLOS Biology 2020. Coordena o site de divulgação: A Ciência que nós fazemos. Ele acredita que o nós é sempre mais importante que o eu.  

O que te motivou a escolher o curso de Ciências Biológicas?
Minha sogra que era formada em História Natural, a necessidade de fazer uma faculdade e um curso que eu seria aprovado com algo que eu gostaria de fazer. Um amigo me levou a ver uma aula na Unicamp e fui em frente. Era pobre, trabalhava em banco à noite, precisava estudar e mudar de vida.
 
O que mais chama a sua atenção nas formigas?
Abundância, facilidade de encontrar e trabalhar com elas, diversidade. Podem ser manipuladas experimentalmente, ótimos modelos.
 
Qual foi a pesquisa mais desafiadora que realizou?
Meu mestrado, com gafanhotos miméticos, raros. Nunca trabalhe com bichos raros. 

Qual trabalho você sente mais orgulho e/ou satisfação por ter concluído? 
O Livro "Plant-Animal Interactions: source of biodiversity" - Springer/Nature 2021 que publiquei com a Prof. Helena Maura Torezan Silingardi.

Quais animais mais gostou de trabalhar na área de etologia? Por qual razão?
Formigas - pela abundância, diversidade e comportamentos surpreendentes; Libélulas e gafanhotos miméticos pela beleza, Pseudoescorpiões - pela história de vida INCRÍVEL!
 
Conte-nos sobre a experiência de presidir a comissão "Tropical Biology and Natural Resources"- UNESCO/EOLSS - United Nation Educational, Scientific and Cultural.
Um desafio enorme, pessoas de 28 países, homens, mulheres, de todas as etnias, costumes, diversidade. Um enorme desafio cumprir prazos e com a qualidade esperada em meio a tanta diversidade necessária. 

Olhando para toda sua trajetória, já passou por alguma questão delicada na qual pensou em desistir?  
Sim, no governo FHC o salário era tão ruim, mas tão ruim, que pensei em abrir uma padaria e largar tudo. Graças a Deus veio o governo Lula e salvou as universidades. Ainda sobrevivemos graças ao governo Lula, pois não temos reajuste desde 2014. 

A ciência brasileira vem sendo financiada, tradicionalmente e em maior parte, pelo sistema de fomento científico e tecnológico, o que inclui fundos de amparo à pesquisa estaduais e CNPq. Como podemos distribuir as fontes e aumentar a eficiência para financiar estudos? 
O dinheiro que o Brasil investe em pesquisa e bolsas é muito pouco comparado ao que gastam com ementas parlamentares e os tais orçamentos secretos, seja lá o que for isso. Precisamos dobrar os investimentos e aumentar significativamente a cobrança por resultados, assim como a fiscalização. Muita gente não entrega o que promete. 
 
Sabendo que no meio acadêmico nem tudo é flor, como integrantes da academia e pessoas associadas podem elevar a régua das boas práticas e aumentar os ciclos de convívio mais saudáveis? 
O pior é o ego inflado de alguns, os maus tratos a colegas, especialmente alunos e servidores técnicos por parte de alguns maus docentes. Nem sempre a competência acadêmica está associada ao bom caráter. O Assédio moral e sexual deve ser combatido a ferro e fogo, mas nossas instituições são muito permissivas e corporativistas. Fiz minha parte como gestor sempre, tomando conhecimento de denúncias, coloquei todas para andar sempre. Nunca varri para baixo do tapete, embora as instâncias superiores muitas vezes não deem segmentos por motivos variados. 

4. Interações • Inseto-planta 
Os insetos são do grupo dos artrópodes, o mais numeroso e diversificado organismos multicelulares terrestres do planeta e estão por toda parte - assim chamados de ubíquo. Os insetos, a imensa maioria dos herbívoros estabelece uma forte interação com suas hospedeiras, realizando todo o desenvolvimento larval em um único indivíduo, do qual se alimentam e no qual se abrigam. Por isso, a planta hospedeira é um dos componentes mais importantes do ambiente a ser considerado na história de vida de um inseto fitófago, que significa: se alimenta de vegetais, e essa importância se dá tanto por efeitos diretos como indiretos. 

A planta é também o habitat imediato dos herbívoros, influenciando as condições microclimáticas a que os indivíduos estão expostos. A fauna de lepidópteros em plantas do cerrado se insere no padrão da região tropical, a riqueza e a abundância das lagartas variam durante o ano, com um pico máximo de ocorrência no início da estação seca, a frequência das lagartas nas plantas varia de acordo com a idade relativa das folhas e com a espécie hospedeira e as espécies mais abundantes em determinada planta parecem ser aquelas com maior especificidade em sua dieta. 

Dentro da ordem lepidóptera existem várias famílias de lagartas que constroem abrigos, uma dessas famílias se chama Hesperiidae, representada por cerca de 4.000 espécies que têm ampla distribuição geográfica. Os hesperídeos (uma família de borboletas) constroem abrigos durante a ontogenia larval (período de metamorfose) e o processo de construção é o mesmo dentro de cada espécie, tornando-os úteis para a identificação da larva no campo. As larvas enrolam, cortam, dobram e prendem porções das folhas das plantas hospedeiras na construção de diversos tipos de abrigos. A arquitetura desses abrigos larvais varia entre os gêneros e, até mesmo, entre os ínstares e larvais. Entretanto, o processo é o mesmo dentro de cada espécie, e assim pode ser útil para a identificação da larva no campo. São reconhecidos cinco tipos de abrigos foliares, baseados na arquitetura: 1. construído sem cortes (“no-cut shelters”); 2. construído com várias folhas (“multi-leaf shelters”); 3. construído com um corte circular central (“center-cut shelters”); 4. construído com somente um corte na folha, sendo que a porção cortada fica sobre a outra (“one-cut shelters”) e 5. construído por dois cortes na margem da folha (“two-cut shelters”). 

O Cerrado do Distrito Federal é rico em espécies de Hesperiidae, com 335 espécies registradas (8,4% da fauna mundial). Dessas, 173 são Pyrginae sendo que 14 pertencem à tribo Pyrrhopyginae. Já foram registradas para o Cerrado três espécies do gênero Elbella: E. azeta giffordi; E. intersecta loscar Evans, 1951, que é endêmica do bioma, e E. luteizona, com o fenótipo sem as manchas alares amarelas. E. luteizona é uma borboleta encontrada no cerrado do Distrito Federal e em regiões dos estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Os adultos voam de janeiro a abril. Sabe-se que a larva é polífaga, alimentando-se de plantas de pelo menos duas famílias diferentes no cerrado: Byrsonima coccolobifolia Kunth (da família Malpighiaceae) e Myrsine guianensis (Aubl.) Kuntze (da família Myrsinaceae). Além disso, como característica da família, este hesperídeo constrói e se refugia em abrigos. Os abrigos diferem ao longo da ontogenia larval. A arquitetura dos abrigos combinada com observações de campo podem ser determinantes para identificação de espécies ou níveis taxonômicos superiores, bem como para avaliar relações filogenéticas.

Natu 30 • 16/09/2022 • Quaresmeira (Trembleya parviflora) • Redação • Direção: Rodrigo Viana; Conteúdo: Nathália Araújo; Nayra Gualberto; Thayane Silva; Fotografias: Ani Cátia Giotto, Kleber Del-Claro.

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