Predação de morcego por aranha caranguejeira


Enquanto participávamos de uma campanha de captura de morcegos, no norte mato-grossense (Floresta Amazônica), nos deparamos com uma interação bem peculiar. Em uma das vistorias de rede de neblina, para fazer o manejo adequado dos indivíduos por ela capturados, verificamos que uma aranha caranguejeira (família: Theraphosidae) de coloração azulada (ver foto) havia iniciado o processo de inoculação de seu suco gástrico em um morcego do gênero Carollia, o qual ficou preso no bolsão mais baixo da armadilha.

As setas apontam para os pedaços de rede de neblina presos à aranha.

Para conseguir desvencilhar o aracnídeo e o quiróptero (quiro=mão, ptero=asa) da rede de neblina foi necessário cortá-la, o que pode ser visto na foto, pois a aranha ficou com alguns pedaços preso ao corpo. Não foi possível registrar a inoculação acontecendo, entretanto, é fácil visualizar as marcas das quelíceras (estruturas usadas na alimentação das aranhas, equivalentes às antenas dos insetos) no corpo do morcego.

Embora seja um acontecimento estranho de se presenciar e hipoteticamente raro de acontecer, esse tipo de predação é comum na natureza. De acordo com Nyffeler & Knornschild, 2013, essa relação trófica ocorre em todos os continentes, exceto Antártica, e não se restringe às aranhas da família Theraphosidae protagonizando o ataque mortal, pois já foram registradas predações de morcegos por indivíduos das famílias Nephilidae, Araneidae e Sparassidae.
Marcas deixadas pelas quelíceras da aranha ao morder o morcego.

Além do seu importante papel como controlador populacional de insetos, polinizador e dispersor de sementes, devido ao amplo hábito alimentar que permeia as espécies desse grupo, por volta de 1100, os quirópteros também colaboram nas relações ecológicas, como presas na alimentação de algumas espécies. Inclusive já foi registrada predação de Carollia sp. (pequeno morcego frugívoro) por Vampirum espectrum (morcego de grande porte carnívoro).

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Esse registro foi realizado por João Lucas, pesquisador associado do Instituto Jurumi, durante atividades de campo realizadas na Floresta Amazônica. Ele já atuou em alguns trabalhos com morcegos. Atualmente ele tem um projeto no Instituto dedicado ao estudo de morcegos no Cerrado.

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